18.6.10

New Media Art #03

O ano de 1994 foi um ano repleto de histórias de tecnologias e meios de comunicação. A Netscape Corporation introduziu o primeiro navegador comercial de internet, assinalando a transformação de uma rede primeiramente usada por investigadores académicos e informáticos, transformando-a, assim, num meio popular de comunicação pessoal, de publicação e comércio. Arte e tecnologia refere-se ás práticas como arte electrónica, arte robótica ou arte genética, que utilizam tecnologias novas mas não se relacionam necessáriamente com os media. A “media art” incluí a “video art”, “web art” e “net art”. A internet está no centro do projectos de “new media art”. Esta é composta por uma variedade de hardware e software, em constante mudança - os servidores, computadores pessoais, aplicação de dados, scripts, ficheiros - suportados por protocolos como “http”. O uso do computador implica estratégias que se afastam do processo de leitura tradicional que o livro impresso nos habituou. A página luminosa exposta no ecrã apela principalmente ao ver, percorrer com o olhar, mais do que a ler em sequência. Esta mutação na inscrição tem implicações profundas, já que a página de papel transporta consigo o registo fixo. O ecrã apresenta uma superfície lisa e luminosa oferecida à percepção visual. Para os artistas, a internet é um espaço social, e a partir de 1996 deu-se um crescimento da internet comercial, paralelamente foram cada vez mais realizados trabalhos de “internet art” em exibições de arte contemporânea. Promovendo assim uma problemática, ainda hoje muito discutida, da exposição num espaço imaterial, o ciberespaço.

No século XX, os artistas exploraram espaços alternativos como o rádio, vídeo ou televisão, espaços públicos - que ganhavam forma de cenários urbanos, media electrónica ou paisagens naturais, ofereceram novos desafios e possibilidades. As manifestações públicas de video arte de Nam June Paik ou projectos ambientais (Land Art) de Christo e Jeanne, são alguns exemplos. Estes trabalhos têm em comum o facto de não estarem inseridos em formatos padronizados e de romperem com as expectativas do público. A estes artistas foi permitido expandir a imaginação pública e revelar possibilidades sem precedentes. Foi no final do século XX que o público começou a pensar a internet como a web. Web é somente um dos muitos protocolos on-line, é um subsistema de internet. Muitos artistas criaram novos browsers alternativos, enquanto alguns exploram a internet como um meio bi-direcional, outros integram interactividade em contextos híbridos que incorporam o espaço físico. A Internet pode ser pensada como um espaço público, podendo a arte, resultada através dela, ser considerada de “arte pública”.

“A internet configura uma situação cultural absolutamente nova” (Referência bibliográfica: http://netart.incubadora.fapesp.br/portal/Members/fabifal/ficha/ekac), permitindo ajudar os artistas a definir um processo social com reflexão no seu impacto e potêncial. As alternativas culturais e comunicacionais na internet são evidências de que essa rede global é um novo tipo de espaço público. Sem internet, os trabalhos imateriais seriam apresentados através de um CD-Rom, com circulação limitada, ou num contexto de exposição, com imagens impressas ou projectadas e instalações interactivas, comprometendo seu significado. A internet não está confinada a um meio de publicação ou a uma extensão da televisão. Frequentemente trabalhos, em colaboração, vão muito para além das criações de peças para a web. Uma nova geração de artistas criam trabalhos imateriais, telemáticos, na e para a web, estimulando inovações radicais e propondo a critica dos media, atribuindo especial atenção à palavra colectivo. A internet oferece um modelo de descentralização do conhecimento e das estruturas de poder. Poderá num futuro próximo, permitir a computação multimédia móvel, como pr exemplo estrutura da fibra óptica, acesso sem fio, e pequenos dispositivos portáteis conectarão indivíduos através da integração de voz, texto, gráficos, vídeo-conferências, tele-presença e mundos 3D. Talvez num futuro próximo será comum a existência de um browser e servidores em carros e aviões, permitindo um maior número de pessoas conectarem-se à internet sem um computador pessoal, conferindo mobilidade e novas possibilidades de arte de rede. Quanto mais pessoas têm acesso a internet, mais esta forma de arte ganha seguidores novos. A tela do computador é muito mais que uma saída de dados, é um veículo de interacção, uma ponte para outros mundos serem descobertos e inventados, surgindo novos conceitos com o conceito de ciberespaço como espaço público.



Poetas: Armando Macatrão

Armando Macatrão, I...mgração, 1986

Armando Macatrão, Soneto do nada ubíquo, 1987



Armando Sales Macatrão, Labirinto da Loucura 1988



14.5.10

New Media Art #02

Desde meados dos anos 1940, artistas ligados à engenharia já trabalhavam com a cinética das luzes artificiais. Já nos anos 1950, as experiências musicais executadas a partir de manipulações dos aparelhos de rádio, suscitaram interesse e uma nova estética musical - a música concreta, de Pierre Schaeffer, influenciou e promoveu as grandes inovações estéticas de compositores como John Cage, Boulez e Stockhausen. Ainda no final dos anos 1950 e no começo da década de 1960, Nam June Paik apropriou-se dos aparelhos televisivos para produzir objectos de vídeo arte.

Os artistas preocupavam-se com as propriedades estéticas geradas pelas linguagens dos novos meios. É possível que não imaginassem o modo pelo qual a tecnologia entraria imperativamente em todas as relações da vida quotidiana, mas estavam ligados sobretudo às questões relacionadas com a cor e a luz e principalmente com o movimento. Na década de 1970 estabelece-se uma ruptura da concepção da arte enquanto realização objectual. Nasce assim a arte conceptual que privilegia a ideia em detrimento do objecto, culminando na sua desmaterialização.Os anos 1980 “marcam a consciência dos artistas para as intervenções das novas tecnologias na vida quotidiana” (Liesen, 2005: 8), constituindo uma ruptura com as pesquisas anteriores a respeito da interacção entre arte e tecnologia. Nesse mesmo período, os artistas começaram a experimentar vários suportes para representação artística como o laser, a holografia ou a electrografia. Apesar destes novos suportes, foi o vídeo que surgiu como a principal forma de representação, “situando a pesquisa artística nas questões do tempo e de espaço modificados pelas novas tecnologias” (Liesen, 2005: 8). Muitas vezes associado ao computador, o vídeo tem a capacidade de sintetizar imagens sem a utilização de câmaras. Esse facto faz com que o vídeo também lide com problemas de imaterialidade, simulação e realidade. A partir dos anos 1990, o computador mudou de instrumento de trabalho para ferramenta usada para a produção de conteúdos. No fim da década, com a popularização da internet, o computador tornou-se uma máquina de mediação universal que podia ser usada para criar, armazenar, distribuir e aceder a todos os media. A internet está no centro do projectos de new media art.

O ano de 1994 foi um ano repleto de histórias de tecnologias e meios de comunicação. A Netscape Corporation introduziu um dos primeiros navegadorrs comercial de internet, assinalando a transformação de uma rede primeiramente usada por investigadores académicos e informáticos, transformando-a num meio popular de comunicação pessoal, de publicação e comércio. Para os artistas, a internet mostra-se como um espaço social. A partir de 1996 deu-se um crescimento da internet comercial. Paralelamente, foram realizados trabalhos de “internet art” em exposições de arte contemporânea, promovendo assim uma problemática, ainda hoje muito discutida, sobre a exposição num espaço imaterial, o cibercultura.Foi no final do século XX que o público começou a pensar a internet como rede.

A World Wide Web é somente um dos muitos protocolos on-line, é um subsistema de internet. Muitos artistas criaram novos browsers alternativos, enquanto alguns exploraram a internet como um meio bi-direcional, outros integraram interactividade em contextos híbridos que incorporam o espaço físico. Sendo assim, a internet pode ser pensada como um espaço público, em que a arte ali produzida pode ser considerada “arte pública”.

“A internet configura uma situação cultural absolutamente nova” (Kac, 2005), permitindo ajudar os artistas a definirem um processo social com reflexão no seu impacto e potencial. As alternativas culturais e comunicacionais na internet são evidências de que essa rede global é um novo tipo de espaço público. Sem internet, os trabalhos imateriais seriam apresentados num CD-Rom, com circulação limitada, ou num contexto de exposição, com imagens impressas ou projectadas e instalações interactivas.Uma nova geração de artistas cria trabalhos imateriais, na e para a web, estimulando inovações radicais e propondo a crítica dos media, atribuindo especial atenção à palavra colectivo. A internet oferece um modelo de descentralização do conhecimento e das estruturas de poder. A ecrã do computador é muito mais do que uma saída de dados, é um veículo de interacção, uma ponte para outros mundos serem descobertos e inventados, surgindo novos conceitos como o conceito de cibercultura.

«Hoje, cada vez mais, os artistas lançam mão do computador para construir suas imagens, suas músicas, seus textos, seus ambientes (...) De repente, nos damos conta de uma multiplicação vertiginosa ao nosso redor de trabalhos realizados com pesada mediação tecnológica. Mais do que nunca, chegou a hora de traçar uma diferença nítida entre o que é, de um lado, a mera produção industrial de desenhos agradáveis para as mídias de massa e, de outro, a busca de uma ética e uma estética para a era eletrônica.» (Machado, 2004: 2)

Priscila Arantes no livro Arte e Mídia, perspectivas da estética digital, pretendendo fazer uma pequena “arqueologia” da palavra “mídia”, salienta o pensamento de Lucia Santaella no livro Cultura e artes do pós-humano: «assinala a expansão que o termo vãi ganhando na contemporaniedade devido ao desenvolvimento acelerado da informática e da sua inter-relação com os meios de comunicação. Longe de se referir exclusivamente aos meios de comunicação de massa, o termo mídia diz respeito, também, a todos os processos de comunicação mediados por computador (CMC). É sobre essa perspectiva que a autora, em vez de usar a expressão “novas mídias”, utiliza “mídias digitais” (…) para designar essa nova fase da cultura contemporânea estritamente influenciadas pela revolução da informática e pelas tecnologias numéricas.» (Arantes. 2005: 23) 

Ao empregar a expressão “arte em mídias digitais” Arantes “sugere uma produção artística que actua não somente na interface com a informática mas também na confluência com os meios de comunicação mediados por computador”. Nas décadas de 1950 e 1960 a expressão mais usada era “arte cibernética”, nos anos 1970 e 1980 “arte informática”, nos anos 80 passou a chamar-se “arte e tecnologia”, “arte numérica” ou “arte electrónica”. Actualmente, os termos mais utilizados são tão variados como ciberarte, arte digital, net arte, web arte ou arte nos novos media. Embora não exista ainda um consenso terminológico para designar estas novas formas de expressão, a autora optou por utilizar a expressão “arte em mídias digitais” para designar as artes nos media, isto é, que utilizam os media digitais para desenvolver peças criativas.

«A expressão “arte em mídias digitais” abrange, desse modo, as formas de expressão artísticas que se apropriam de recursos tecnológicos desenvolvidos pelas industrias eletrónico-informáticas e que disponibilizam interfaces áudio-tátil-moto-visuais propicias para o desenvolvimento de trabalhos artísticos, seja no campo das artes baseadas em rede (on-line e wireless), seja na aplicação de recursos de hardware e software para a geração de propostas esteticas off-line.» (Arantes. 2005: 24)Arlindo Machado usa o termo “artemídia” e segundo este a “arte é feita com os meios do seu tempo, a artemídia representa a expressão mais avançada da criação artística actual” (Machado, 2002: 1).

Desde as décadas de 1950 e 1960 já estavam disponíveis recursos informáticos que permitiam a manipulação e exibição de imagens. «Por meio de algoritmos executáveis pelo computador, as primeiras obras de computer art eram, na sua maioria, não figurativas. Michal Noll, Georg Nees, Vera Molnar, Manfred Mohr e no Brasil, Waldemar Cordeiro foram alguns pioneiros artistas a trabalhar com sistemas computacionais.» (Arantes. 2005: 26)

Entre as décadas de 1980 e 1990, quando o computador pessoal se tornou mais acessível e surgiu a internet, cada vez mais experimentações artísticas começaram a recorrer à informática. «Ciber instalações, cibercenários, ambientes imersivos, sistemas multiusuários, telepresença, telepreformances, instalações e performances digitais, net-arte, robótica, vida artificial, arte transgénica, propostas estéticas que utilizam comunicações sem fios, trabalhos on-line e off-line são algumas das formas pelas quais os artistas contemporâneos vêm trabalhando com as mídias digitais.» (Arantes. 2005: 26)

Para este novo tipo de arte, criada em computador e que usa algoritmos para o seu “nascimento”, dá-se o nome de arte generativa. A arte generativa refere-se à arte que foi gerada, composta ou construída através de formas algorítmicas e da utilização de sistemas definidos por computador (software de algorítmos, fórmulas matemáticas, etc.) que criam processos autónomos aleatórios. O termo arte generativa não descreve um movimento de arte ou uma ideologia. É apenas um método de fazer arte. Refere-se à forma como a arte é criada, não tendo em conta as razões e os conteúdos da obra.

Um artista ou criador estabelece algumas regras básicas, fórmulas e/ou modelos que possam definir um processo aleatório ou semi-aleatório para trabalhar elementos. Os resultados continuarão dentro dos limites estabelecidos, mas também podem estar sujeitos a modificações e poderão ser mesmo surpreendentes. Uma obra de arte generativa geralmente nunca se repete da mesma forma.As principais características da arte generativa são: a utilização de sistemas computacionais como um método de produção; auto-suficiência ao funcionar com algum grau de autonomia; diversos graus de complexidade, sendo de difícil a previsão de comportamento; resultados com infinitas variações pertencentes à mesma ideia. Destaca-se o processo de criação como uma característica essencial e não apenas o resultado final da criação.

A arte generativa pode também surgir em tempo real, através de feedback e interacção com um ou mais participantes. Poderá surgir em diferentes tipos de ambientes de programação gráfica, como por exemplo Max/Msp, Pure Data ou vvvv, são usados em tempo real no audiovisual generativo, em expressões artísticas como Demoscene e VJ’ing. Demoscene é uma sub-cultura da arte informática especializada na produção de demos, apresentações aúdio-visuais não-interactivas, executadas em tempo real num computador. O principal objectivo de um demo é demonstrar tecnicamente as habilidades de programação, artes gráficas e música entre os diversos demogroups.A inteligência artificial e o comportamento automatizado introduziram novas formas de ver a arte generativa. Ken Rinaldo é um artista americano que criou instalações de arte interactiva que exploram a intersecção entre a natureza e a tecnologia. As suas instalações de arte robótica e bio-arte procuram misturar elementos mecânicos e orgânicos. Autopoiesis (2000) e Augmented Fish Reality (2004) são duas das suas obras mais conhecidas. Autopoiesis é uma instalação que explora a ideia de consciência de grupo, inclui quinze esculturas robóticas que interagem com o público e modificam os seus comportamentos com base na presença dos participantes.

Os exemplos de arte generativa surgem das mais variadas áreas, não sendo exclusivos das artes visuais. Na música destacam-se compositores como John Cage, que usou os princípios de arte generativa nas suas obras. Explora diversos softwares onde a música cria imagens e sons de correspondência exacta entre a cor/símbolo, em relação ao som, produzindo múltiplas variações. Sergio Maltagliati, compositor e artista visual-digital que, desde 1997, trabalha principalmente a música na internet tem como uma das suas primeiras composições o netOper @. Em 1999 desenvolveu autom @ tedVisualMusiC, um software inspirado a partir de experiências de Pietro Grossi, compositor italiano, pioneiro na música digital, artista visual e hacker. Foi o primeiro artista em Itália a experimentar técnicas electrónicas no início dos anos 1970. Brian Eno colaborou no desenvolvimento de Koan da SSEYO. Koan é um software de música generativa, utilizado na criação do álbum Generative Music 1. SSEYO, foi fundada por Pete Cole e Cole Tim, especificamente para criar e comercializar o Koan.

Nos videojogos, destacam-se exemplos como SYNTH, um jogo de acção estratégica para o computador, desenvolvido por Paul Rhys Hovey, onde 100% dos seus gráficos surgem de arte generativa; AARON, desenvolvido por Harold Cohen; e Conway’s Game of Life, desenvolvido pelo matemático John Horton Conway em 1970.Nas artes visuais foram desenvolvidas várias técnicas e softwares como: Cut-up, uma técnica anterior às novas tecnologias, utilizada por Tristan Tzara e William Burroughs; Fractal Flames é um software que desenvolveu o projecto Electric Sheep e Apophysis, desenvolvido por Scott Draves; Protoquadro, uma técnica de pintura concebida para ser utilizada em suportes digitais, são objectos artísticos que estão num espaço do mesmo modo que uma pintura tradicional está na parede. O projecto foi concebido por Federico Bonelli e Martinucci Maurizio em 2003. Para este projecto foi realizada uma pesquisa específica sobre algoritmos não convencionais para criar as pinturas de acordo com os princípios generativos. Todas estas ideias são baseadas no conceito de transformação através da sincronicidade. A pintura evolui no tempo e é baseada em material fotográfico, numa ideia de composição e numa regra de evolução.Concluindo, a arte nos media digitais, arte tecnológica, net arte e arte digital, herdou dos dadaístas a utilização do acaso; de grupos como o Fluxus, a ideia de fusão entre arte e vida, o conceptualismo, a performance, a abertura à participação da audiência e a desmaterialização do objecto artístico. Assumindo-se como uma forma de expressão alternativa, potencializando novas participações tecnológicas assim como novas possibilidades visuais, unindo o homem, como ser criador, aos algorítmos e às formulas matemáticas.


New Media Art #01

«Em cada período da história da arte, os artistas produzem as suas obras através dos meios e das técnicas que pertencem ao seu tempo. Os meios e as técnicas provocam mudanças na percepção humana, afectando a nossa maneira de conhecer o mundo, a nossas formas de representar esse conhecimento e as nossas maneiras de transmitir essas representações.» (Lévy, 2003)

Até ao século XIX, os objectos artísticos eram produzidos artesanalmente. Com a Revolução Industrial surgiu um dos elementos mais significativos da história da arte - a máquina fotográfica - “um sintetizador de conhecimentos químicos, matemáticos, ópticos e mecânicos” (Liesen, 2005: 2).

Como Lúcia Santaella (2003: 152) salienta “o aparecimento da fotografia marca o fim da exclusividade das artes artesanais e o nascimento das artes tecnológicas”. Walter Benjamin, mostrou como a fotografia, ao iniciar a era da reprodução mecânica das obras artísticas suscitou uma variedade de problemas estéticos e materiais que influenciaram o imaginário artístico do início do século XX.O artista moderno não podia ignorar as questões “do tempo, do espaço, do fragmentário, do efémero” (Liesen, 2005: 3).

A sua posição definiria as suas bases estéticas, que ganhavam corpo, através das vanguardas artísticas. As vanguardas provocaram uma crise nos suportes tradicionais da arte para procurarem novos meios onde pudessem melhor representar o seu tempo. É neste contexto, e mediante a criação artística, que os artistas do início do século XX juntam as novas tecnologias aos objectos industriais. Ao propor a colocação de um urinol dentro de um museu, Marcel Duchamp em 1917, constituiu o processo de readymade, no qual a arte se confunde com elementos encontrados no quotidiano.

Foi na segunda metade do século XX, que ocorreu uma mudança bastante significativa no imaginário social, com o cinema, a rádio, o jornal e a televisão, a cultura de massas encontrou estabilidade. As grandes descobertas no campo da ciência como a do ADN, descoberto por James Watson e Francis Crickem, 1953, o surgimento de novas tecnologias como o chip desenvolvido por Robert Noyce, Jean Hoerni, Jack Kilby e Kurt Lehovec em 1959, abriram novas possibilidades para o imaginário artístico.Como Walter Benjamin propôs ao analisar o cinema e a fotografia no início do século XX, o mais importante não é saber se objectos e eventos produzidos com as novas tecnologias digitais podem ser considerados “artísticos”, o essencial é perceber qual a existência dessas obras, a sua expansão e a sua presença no quotidiano, “como agem dialogicamente com a sociedade” (Liesen, 2005: 4), indicando mudanças no imaginário a partir de novas formas de sentir, e das novas maneiras de viver através das novas tecnologias.Os artistas exploraram espaços alternativos como a rádio, o vídeo, a televisão ou os espaços públicos - que ganhavam forma de cenários urbanos ou as paisagens naturais e que ofereciam novos desafios e possibilidades. As manifestações públicas de vídeo arte de Nam June Paik ou projectos de Land Art de Christo e Jeanne, são alguns exemplos. Estes trabalhos têm em comum o facto de não estarem inseridos em formatos padronizados e de romperem com as expectativas do público. Estes artistas permitiram expandir a imaginação pública e revelar possibilidades sem precedentes. 


Poesia Visual #02

O experimentalismo tipográfico frequentemente associado à ideia de vanguarda, tem uma função bem delineada na procura e na construção do novo. Na prática da poesia visual há que ter em consideração o relacionamento interdisciplinar com as outras formas de articulação da palavra e da imagem. Melo e Castro (1988) refere uma “rede intersemiótica (entre a produção verbal e não-verbal), como se de uma intrincada rede de traduções e equivalências se tratasse.”

Com as práticas neo-vanguardistas do pós-guerra, como a poesia visual, concreta ou experimental, assistiu-se à introdução de inovações significativas no domínio literário. A poesia concreta procurou, desde o início, reestruturar a linguagem da poesia da época, promovendo uma utilização de linguagem simplificada, condensada e principalmente autónoma. «No plano estético, além da grande evidente diferença entre ambas (a presença da imagem visual na poesia visiva, enquanto a poesia concreta se dá dentro dos limites da verbalidade) é tambem facilmente observavel a distinçãoo no âmbito da construção formal. Enquanto a poesia concreta se funda numa contrução racional e medida que fazia interagir formalmente as palavras doo poema, a poesia visiva se pauta pela caoticidades da armação, numa proposital fórmula desestrutural, que se choca frontalmente com a ídole construtiva do poema concreto» (Menezes, 1994: 206)Segundo Pedro Reis (Reis, 1998: 34) a poesia concreta surge “sem quaisquer marcas personalizadas da presença do autor” no texto, um poema/objecto industrial que se projecta em e por si mesmo, não interpretando objectos exteriores e/ou sensações mais ou menos subjectivas, procurando comunicar a materialidade. Caracterizar-se por um conjunto interactivo de diversos códigos, onde cada leitor faz a sua própria leitura, a poesia concreta revelou-se uma produção aberta, de modo poético e abrangente, na qual a elaboração de sentidos se realiza pela acção de diversas componentes, sendo por isso importante destacar a sua natureza semiótica generalizada. Integra elementos da poesia como o material linguístico; das artes plásticas como as formas, a disposição espacial, o ponto, a linha e a cor; da música; do cinema como o ritmo visual, repetições, sucessões; ou ainda da tipografia, da publicidade ou do jornalismo.

«A Poesia Concreta não é apenas mais um movimento de vanguarda. Em vez disso penso que foi a chegada a um ponto de vista radical em relação a toda a poesia moderna. Tão radical que pode até pôr-se em questão se a Poesia Concreta pertence mesmo à literatura, uma vez que ela representa uma crítica inventiva de todas as dimensões da escrita literária.» (Castro, 2006: 156)

Os poetas concretistas adoptaram uma atitude criativa, livre e aberta à experimentação. Afirmavam-se contra os padrões literários que dominavam e revelavam necessidades de inovação que abrangiam duas faces distintas, uma desmontagem do discurso literário convencional e um novo construtivismo discursivo, principalmente através do poder da comunicação visual. Esteticamente, os poemas concretos são diferentes dos tradicionais, provocando no leitor, que também é o espectador, alguma estranheza. Este movimento artístico chegou a Portugal através do experimentalismo e a partir dos anos 1960 teve como representantes na sua teorização e criação Ana Haterly, Ernesto Manuel de Melo e Castro, Souza-Cardoso e M. S. Lourenço.


27.4.10

Poetas: E. M. de Melo e Castro



E. M. de Melo e Castro, Tontura, 1962



E. M. de Melo e Castro, Soneto Soma 14x, 1963


E. M. de Melo e Castro, Hipnotismo, 1962




E. M. de Melo e Castro, Espinha dorsal, 1962


E. M. de Melo e Castro, Casa sem sol é triste, 1962

Poetas: Herberto Helder


Herberto Helder, Hipopótamos

26.4.10

Poetas: Alexandre O'Neill


Alexandre O'Neill, Poemas de divertimento com sinais ortográficos, 1960





Poetas: Abilio-José Santos

Abilio-José Santos, sem titulo, 1968


Abilio-José Santos, sem titulo, 1968



Abilio-José Santos, sem titulo, 1968


22.4.10

Poetas: Ana Hatherly

Ana Hatherly - Labirinto de letras - 1994

Ana Hatherley, Inédito, 1971

Ana Hatherly, O meu braço rema no vento, 1959-1969

Ana Hatherly, Inspo-expiro, 1959-1969



16.4.10

Books no google #01

Quando é difícil encontrar "aquele livro" talves seja possível encontrá-lo na biblioteca do google, mesmo que não contenha a versões completa, é sempre uma boa leitura. Aqui estão algumas sugestões:
Teoria da Poesia Concreta: Textos Críticos e Manifestos de 1950-1960, Por Augusto de Campos
http://books.google.pt/books?id=o9TEgAa8kawC&printsec=frontcover&dq=TEORIA+DA+POESIA+CONCRETA-+TEXTOS#v=onepage&q=&f=false

O fim visual do século XX e outros textos críticos, Por Ernesto Manuel de Melo e Castro
http://books.google.pt/books?id=-725M0G11eIC&pg=PP1&dq=O+fim+visual+do+s%C3%A9culo+XX+e+outros+textos+cr%C3%ADticos#v=onepage&q=&f=false

Poesia concreta brasileira: as vanguardas na encruzilhada modernista, Por Gonzalo Moisés Aguilar
http://books.google.pt/books?id=0Mk5CnL6l5EC&pg=PA65&lpg=PA65&dq=poemas+de+tristan+tzara&source=bl&ots=sh0azetgCF&sig=YQj3Rvn6nT5NEyKtOJmiNKcTi_A&hl=pt-PT&ei=A5_5So2LHoOKnQOl9Ki4Cg&sa=X&oi=book_result&ct=result&resnum=6&ved=0CBMQ6AEwBTge#v=onepage&q=&f=false

Ideograma: lógica, poesia, linguagem, Por Haroldo de Campos
http://books.google.pt/books?id=f2WXJVadjksC&pg=PP1&dq=augusto+de+campos&rview=1&cd=19#v=onepage&q&f=false

Dialogramas concretos: uma leitura comparativa das poéticas de João Cabral ..., Por Helton Gonçalves de Souza
http://books.google.pt/books?id=1Odv2oV-isAC&printsec=frontcover&dq=augusto+de+campos&rview=1&cd=23#v=onepage&q&f=false

Antología de la poesía latinoamericana, 1950-1970, Volume 2, Por Stefan Baciu
http://books.google.pt/books?id=umj5SZYPeT8C&pg=PA225&dq=POESIA+CONCRETA&lr=&rview=1&cd=43#v=onepage&q=POESIA%20CONCRETA&f=false

Poesia pois é poesia: 1950-2000, Por Décio Pignatari
http://books.google.pt/books?id=ykdzduH3PPAC&printsec=frontcover&dq=POESIA+CONCRETA&lr=&rview=1&cd=35#v=onepage&q=POESIA%20CONCRETA&f=false

Outros poemas, 1990-1992, Por Régis R. Bonvicino
http://books.google.pt/books?id=sLT21HS1nrAC&pg=PP4&dq=POESIA+CONCRETA&lr=&rview=1&cd=68#v=onepage&q=POESIA%20CONCRETA&f=false

Poesia, Por Augusto de Campos
http://books.google.pt/books?id=upw2FNmLSlkC&pg=RA1-PA21&dq=POESIA+CONCRETA&lr=&rview=1&cd=108#v=onepage&q=POESIA%20CONCRETA&f=false

Poemas Visuais e Poesias, Por Hugo Pontes
http://books.google.pt/books?id=wQo1sI8Od4cC&pg=PA152&dq=POESIA+visual&lr=&rview=1&cd=8#v=onepage&q=POESIA%20visual&f=false

Informação. Linguagem. Comunicação, Por Décio Pignatari
http://books.google.pt/books?id=t7nZbLVR9mUC&pg=PA142&dq=POESIA+CONCRETA&lr=&rview=1&cd=119#v=onepage&q=POESIA%20CONCRETA&f=false

Contracomunicação, Por Décio Pignatari
http://books.google.pt/books?id=h6XNywC_a-UC&pg=PA19&dq=POESIA+CONCRETA&cd=10#v=onepage&q=POESIA%20CONCRETA&f=false

Literatura e sociedade: narrativa, poesia, cinema, teatro e ..., Volume 2005, Por André Bueno
http://books.google.pt/books?id=YlJlhkPLptQC&pg=PA11&dq=POESIA+CONCRETA&lr=&rview=1&cd=139#v=onepage&q=POESIA%20CONCRETA&f=false

Made in Brasil: três décadas do vídeo brasileiro, Por Arlindo Machado
http://books.google.pt/books?id=yY9rkCpSX2wC&pg=PA132&dq=POESIA+CONCRETA&lr=&rview=1&cd=150#v=onepage&q=POESIA%20CONCRETA&f=false

A arte no século XXI: a humanização das tecnologias, Por Diana Domingues
http://books.google.pt/books?id=Gsrc4Ljx2tEC&pg=RA1-PA278&dq=POESIA+visual&lr=&rview=1&cd=29#v=onepage&q=POESIA%20visual&f=false

Revistas na era pós-verso: revistas experimentais e edições autônomas de ..., Por Omar Khouri
http://books.google.pt/books?id=kdrKGK2iuWcC&pg=PA52&dq=POESIA+visual&lr=&rview=1&cd=46#v=onepage&q=POESIA%20visual&f=false

Poesia Visual #01

«O termo poesia visiva, muito marcada pela declarações teórico-ideológicas dos poetas participantes, que guardam evidentes laivos vanguardistas, cedeu lugar aos poucos para o mais amplo e indefinido termo poesia visual, que acabou por se firmar em mostras, publicações e antologias em todo o mundo, às vezes se completando com o termo poesia concreta, outras contendo esta.» (Menezes, 1994: 197)

Segundo Philadelpho Menezes, a poesia visual, anteriormente com o nome de poesia visiva, refere-se a qualquer poema feito de palavras e imagens visuais, tais como signos gráficos, fotografias, desenhos e símbolos visuais. A poesia visual propõe a incorporação da imagem visual (fotografia, desenho, etc.) “como elemento poético, como signo equivalente ao verbal, que entra em combinação, se não for formal, ao menos certamente semântica com a palavra e o texto” (Menezes, 1994: 205). A imagem visual desta passa a fazer parte da escrita poética, ganhando assim a mesma função atribuída ao signo verbal.

“A poesia visual resulta da intersecção entre a poesia e a experimentação visual” (Bacelar, 2001: 2) podendo ser vista como o resultado duma sobreposição entre a escrita e o desenho, uma vez que toda a escrita tem origem no desenho (a escrita poderá ser entendida como um desenho de palavras). É possível pensar simplesmente em imagens, tal como se pode pensar simplesmente em palavras. Se a escrita e o desenho são meios de comunicação mental, será no pensamento que a poesia e o traço se encontram.Apesar de ser um movimento surgido já numa fase tardia da modernidade, a poesia visual assenta numa prática antiga - tão antiga como a própria escrita – de procurar veicular os sentidos através de um único texto, seja através da disposição gráfica, da manipulação fonética ou ainda da própria escrita e dos sentidos que esta possa insinuar.

Segundo Jorge Bacelar, a escrita ao libertar-se gradualmente da função inicial de registo, descobre e desenvolve uma dimensão artística, dispersando-se pelas mais diversas formas de representação, ultrapassando o seu estádio utilitário, a escrita tornou-se uma forma de arte que acompanhou e contribuiu para a evolução das sociedades em que surgiu, reflectindo os seus modos de pensar, de comunicar e principalmente a sua capacidade de inventar.

«A poesia visual assenta numa prática experimental. Prática essa que à primeira vista transmite um aspecto efémero, volátil, inconsistente, num interminável jogo de tentativa e erro.» (Bacelar, 2001: 8)


15.4.10

Bibliografia - Poesia Visual, Concreta #01

Aguiar, Fernando & G. Rui da Silva, Concreta, experimental, visual: poesia portuguesa, 1959-1989, Lisboa, Instituto de Cultura e Língua Portuguesa, 1989


Aguiar, Fernando & Silvestre Pestana, Poemografias: Perspectivas da Poesia Visual Portuguesa, Lisboa, Ulmeiro, 1985

Aguiar, Fernando & Maximino, Jorge, Imaginários de Ruptura – Poéticas Exprimentais, Ed. Instituto Piaget (com Jorge Maximino), Lisboa, 2002

Ana Hatherly & E. M. de Melo e Castro, Po.Ex: Textos teóricos e documentos da Poesia experimental portuguesa, Lisboa, Ed. Moraes, 1981

Antologia da Poesia Experimental Portuguesa, Anos 60 – anos 80, org. Carlos Mendes de Sousa e Eunice Ribeiro, Coimbra, Angelus Novus, 2004

Castro, E. M. de Melo e, Antologia, Poemas escolhidos 1951 - 1982, Ed. Moraes, 1982

Castro, E. M. de Melo e, Círculos Afins, Assírio & Alvim, 1977

Castro, E. M. de Melo e, Perspectivas da Poesia Visual: Anos 80 (3 ângulos), Lisboa, Ulmeiro, 1985

Castro, E. M. de Melo e, As palavras só Lidas, Colecção Horizonte de Poesia, Lisboa, Livros Horizonte, 1979

Castro, E. M. de Melo e, Projecto: Poesia, Lisboa, Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 1984

Castro, E. M. de Melo e, A proposição 2.01. Poesia Experimental, Lisboa, Ulisseia, 1965

Castro, E. M. de Melo e, Poética dos Meios e Arte High Tech, Vega, 1988

Castro, E. M. de Melo e, Resistência das Palavras, Plátano Editora, 1975

Castro, E. M. de Melo e, Antologia Efémera: 1950-2000, Plátano Editora, 2007

Castro, E. M. de Melo e, In-Novar, Plátano Editora, 1977

Castro, E. M. de Melo e, Dialéctica das Vanguardas, Livros Horizonte, 1976

Hatherly, Ana, O Pavão Negro, Assírio & Alvim, 2003

Hatherly, Ana, Rilkeana, Assírio & Alvim, 1999

Reis, Pedro, Poesia Concreta: uma prática intersemiótica, Porto, Edições Universidade Fernando Pessoa, 1998

12.4.10

As vanguardas #03 - Escrita automática

A escrita automática é resultado da inspiração do próprio momento, sem qualquer tipo de preparação prévia nem esquema de trabalho previsto. Assume-se com características imediatas, espontâneas e incontroladas. Tanto se pode aplicar a expressão ao tipo de discurso produzido por indivíduos em estado de alucinação ou sob hipnose como para um certo tipo de escrita desconcertada que os Dadaístas e Surrealistas praticaram no inicio do século. Trata-se de um método de produção artística que prioriza o subconsciente sobre o consciente. Esse método foi bastante desenvolvido com as vanguardas artísticas, principalmente através dos Surrealistas, prolongando-se até aos dias de hoje, tendo como percursores não só os artistas das vanguardas, como também os poetas concretos dos meados dos anos 50. Foi André Breton que ajudou na divulgação da escrita automática à qual chamou de “pensamento falado”, entendendo-se este registo como uma tentativa de colocar por escrito os pensamentos não controlados pela lógica ou pela razão. Tinha como objectivo destruir as convenções da escrita tradicional.

Jackson Pollock, acreditava que o automatismo deveria ser regra fundamental de todo o processo criativo e a grande directriz de qualquer composição criativa. Dentro do conceito de “escrita automática” podem-se destacar três formas diferentes de ver este movimento literário, uma defendida pelos Dadaístas (defendiam um procedimentos de criação aleatórios que incorporavam um conjunto de processos caóticos e ao acaso), a defendida pelos Surrealistas (pretendia-se chegar ao inconsciente de cada individuo, daí se tentar libertar o sujeito das convenções e mecanismos a que está habituado) e uma mais espiritual (o escritor era visto como o medium que recebia as mensagens dos espíritos, e as passava inconscientemente para a escrita).

Em Portugal, destaca-se a Antologia organizada por Mário Cesariny de Vasconcelos, “Antologia Surrealista do Cadáver Esquisito”, de 1961. A expressão “cadáver esquisito” diz respeito ao tipo de escrita automática que André Breton e Eluard definiram como um “jogo de papel dobrado que consiste em fazer compor uma frase ou um desenho por várias pessoas, sem que nenhuma delas se possa aperceber da colaboração ou das colaborações precedentes.”


As vanguardas #02

O surrealismo foi o primeiro movimento a tentar formular, teórica e prática, uma estrutura anti-estética, não se limitando como o Dadaísmo, à negação, à revolta ou à recusa. Tentou desde sempre assumir uma postura projectual e conceptual, fundamentada diversas vezes em revistas como a “La Rèvolution Surrèaliste”, a “La Surealisme au service de la Revolution” ou a “VVV”.

André Breton permanece, mesmo depois da sua morte, como o autor mais importante e decisivo, relacionado com o surrealismo, durante quase todo o século XX. Em 1919 escreveu com a colaboração com o poeta Soupault, o primeiro texto surrealista “Les Champs Magnetiques”. A leitura de Freud e Lautréamont foram decisivas, orientando-o para as primeiras experiências do sono hipnótico, experiências essas fundadoras da pesquisa surrealista. A exploração do inconsciente e a conquista de uma nova linguagem criam um novo caminho para a poesia. O sonho e a escrita automática tornam-se os meios de aceder a um surreal liberto da lógica causal. Com influência do poeta simbolista Paul Valéry, deixou-se seduzir pelo Simbolismo que abandona por volta de 1920 envolvendo-se com o Dadaísmo.

No “Premier Manifeste du Surrealisme”, publicado em 1924, onde André Breton define pela primeira vez o movimento, a poesia surge como único meio onde o Homem pode combater as forças que o oprimem, tanto sociais, como económicas, filosóficas ou religiosas. André Breton publicou em 1924, o primeiro Manifesto Surrealista, onde se pode ler:

«O homem, esse sonhador definitivo, cada dia mais desgostoso com o seu destino, a custo repara nos objectos de seu uso habitual e que lhe vieram por sua displicência, ou quase sempre por seu esforço, pois ele aceitou trabalhar, ou pelo menos, não lhe repugnou tomar essa decisão [...] Imaginação querida, o que sobretudo amo em ti é não perdoares. Só o que me exalta ainda, é uma única palavra. Liberdade. Eu considero-a apropriada para manter, indefinidamente, o velho fanatismo humano. [...] Todos sabem, com efeito, que os loucos não devem o seu internamento senão a um reduzido número de actos legalmente repreensíveis e que se não houvesse estes actos, a sua liberdade [ou o que se vê da sua liberdade] não poderia ser ameaçada. Que eles sejam, numa certa medida, vítimas da sua imaginação, concordo com isso, no sentido de que ela os impele à inobservância de certas regras, fora das quais o género se sente visado, o que cada um é pago para saber. [...] Não será o medo da loucura, que nos vai obrigar a colocar a meia-haste, a bandeira da Imaginação!», André Breton, “O manifesto do Surrealismo”, 1924.

“Nadja”, obra de André Breton datada de 1928, marca a etapa no movimento surrealista da procura do “acaso objectivo” sob a forma de um percurso psíquico inconsciente é reveladora de uma actividade fantástica do espírito: o insólito da realidade quotidiana apreendido com um novo olhar. Em 1927, André Breton aderiu ao Partido Comunista Francês. A publicação em 1935 de “Position Politique du Surrealisme” marcou a ruptura com os comunistas. Depois da proibição da publicação da sua “Anthologie de l’humour noir” em 1940, deixou a França e partiu para os Estados Unidos, voltando mais tarde a Paris para organizar duas exposições internacionais do Surrealismo, uma em 1947 e outra em 1965.

O surrealismo evolui em duas direcções diferentes a da “Fantasia Pura” e a da “Reconstrução Poética”. Esta distinção irá dar origem ao aparecimento de dois tipos de surrealismo o “Figurativo”, com Marc Chagall, Salvador Dali, René Magritte, destruíam os temas convencionais da pintura mas preservavam um certo figurativismo e o “Abstracto”, com Yves Tanguy e Joan Miró aproximavam-se das pinturas metafísicas. Social e politicamente, pretendeu primeiramente, desempenhar um papel interventivo e empenhado na sociedade da época, tendo abordado alguns temas controversos, como o erotismo, a perversão, o poder e a religião, com objectivo de escandalizar a burguesia.

No campo da pintura, as primeiras exposições realizaram-se entre 1925 e 1928, numa galeria especialmente dedicada a este movimento. Os surrealistas introduzem fragmentos fotográficos, pintam sobre velhos painéis, praticam colagens, usam catálogos de lojas, tudo, mesmo a maior banalidade do quotidiano, como forma de expandir a sua originalidade. Joan Miró usou sinais cuja abstracção se acentuou e se exprimiu por associações de símbolos que nascem do seu imaginário. Salvador Dali define o processo espontâneo de conhecimento irracional baseado na associação interpretativa e crítica dos fenómenos delirantes. Pensa que se devem aplicar à arte os mecanismos que os paranóicos usam nos os seus delírios, como a alusão a desejos reprimidos ou o recurso a resíduos do passado capazes de revelar aspectos desconcertantes.

“Transformar o mundo, mudar a vida, refazer todas as peças do entendimento humano” é em resumo da ideia surrealista que teve a sua maior expansão no final da década de 60. O surrealismo recebeu três características muito determinantes de herança do Dadaísmo, uma herança de massa critica, uma experiência de revolta e de inconformismo e uma revolta poética internacional contra todas as formas de nacionalismo.

Bibliografia - Vanguardas #01

Almeida, Bernardo Pinto de, Força de Imagem - O Surrealismo na Colecção Berardo, Campo das Letras.

Cesariny, Mário, A intrevenção Surrealista, Assírio & Alvim, 1997.

Vários, História Desenvolta do Surrealismo, 2000, Edições Antígona.

As vanguardas #01

“Nenhum movimento como o surrealismo propôs tanto, a um só tempo, uma real cidadania para todos e uma real liberdade de cada um consigo […] o surrealismo apenas transformou a realidade para fazer dela a sua cama de amor, seu leito de esperanças provadas na praça pública", (pág. 9, Cesariny, Mário, A Intervenção Surrealista, Assírio & Alvim, 1997).

A primeira década do século XX foi crucial para o que viria a ser o século da liberdade criativa tal como nos é conhecido. Iniciou-se com o cubismo e com toda a desconstrução associada a este movimento artístico. Entre 1907-1908, Picasso pintou o que seria o ex libris da pintura cubista "Les Demoiselles d' Avignon". Em 1909 os três irmãos Duchamp, Jacques Villon, Duchamp-Villon e Marcel Duchamp, aderem ao cubismo. Neste mesmo ano foi escrito o Manifesto Futurista de Marinetti. Nos primeiros anos do século o futurismo andou lado a lado com o cubismo. Em Paris, em 1911, Apollinaire assume a defesa dos cubistas, como a do futurismo e a do "Orfismo" de Delaunary.


Pablo Picasso, Les Demoiselles d' Avignon, 1907

Dentro do Cubismo surgiu um movimento de alguns pintores, que opondo-se à linha evolutiva dessa corrente, estavam mais dispostos a ironizar e a desmistificar todos os valores da cultura, afirmando-se mesmo, a existência de uma arte - a anti-arte. Com o crescimento de pintores que se reviam nesta nova forma artística, cria-se uma nova corrente, o movimento Dadaísta, ou simplesmente Dada, liderada Marcel Duchamp e Max Ernst. Para este novo movimento, o que determinava o valor estético não era o procedimento técnico, mas sim, um acto mental. O Dadaísmo é o movimento que deu origem ao Surrealismo, considerado como o seu precursor.


Max Ernst, Oedipus Rex, 1922

Durante algum tempo, estes dois movimentos coexistem mas o Dadaísmo foi-se, aos poucos, esvaziando, à medida que muitos dos seus seguidores se foram integrando no Surrealismo. Segundo André Breton, estes dois movimentos são “como duas ondas que se ultrapassam uma à outra, pois contêm em si uma enorme capacidade de energia e de excitação”. No Surrealismo é-nos dado a ver e a conhecer um mundo imaginário, surreal, impossível de “ser visto”, mas possível de ser sonhado. Artistas como Salvador Dalí ou René Magritte interpretaram nos seus quadros, o mundo de um modo que muito difere da realidade.

«Não existe realmente algo que se possa chamar de Arte. Existem apenas artistas.[...] Arte com maúsculas não existe», Ernest Gombrich, “A História de Arte”.

A arte serve para percepcionarmos o que deixámos de ver (ou o que nunca vimos) ou, por outro lado, arte é uma forma de transformar o inconsciente no consciente.

«[...] captar a sensação de estranheza que pode dominar-nos quando deparamos com o inesperado e o inteiramente enigmático», Ernest Gombrich, “A História de Arte”, sobre a obra de Giorgio de Chirico “A canção de Amor”.

O Dadaísmo, tal como o Surrealismo, ridicularizava a confiança total na civilização ocidental, predominante nos primeiros anos do século XX e destacava a fragilidade de um mundo que se julgava perfeitamente organizado. O iniciador do movimento Dadaísta foi o escritor Hugo Ball, em 1916, em Zurique, com o objectivo de ultrapassar preconceitos, hierarquias estéticas e artísticas em vigor. A esta corrente aderiram vários escritores e artistas, considerados na época como revolucionários, devido às suas ideias radicais, das quais se destaca um novo conceito de criatividade, totalmente inovador. Para eles o acto de criar devia estar livre de qualquer condicionalismo, quer fossem sociais, morais ou estéticos. Procuravam, acima de tudo, dar ênfase ao poder transformador da arte criando um jornal, a que deram o nome de “Dada” - que significa “sim, sim” em romeno e “cavalo de balanço” em francês. O jornal “Dada” tornou-se o veículo através do qual se divulgavam as ideias e emoções do movimento expandindo entretanto o espírito Dada para Nova Iorque, sobretudo com os franceses Marcel Duchamp, Francis Picabia e com o americano Man Ray. Contudo, estes artistas mantinham ligações com o grupo Dadaísta de Zurique. Na Alemanha este movimento também teve os seus seguidores, com destaque para George Grosz, Richard Huelsenbeck, Johannes Baader e Raoul Hausmann. Mais tarde, passou a ser considerado como um movimento negativista, sendo abandonado aos poucos pelos seus seguidores que se foram ingressando no recém criado Surrealismo, com o seu inesgotável potencial de exploração de novas experiências. Embora o Surrealismo fosse considerado também um movimento revolucionário preocupava-se mais com o espiritual e emocional do que com os aspectos materiais. Perante o anárquico impulso de destruição que imperava nos Dadaístas, o Surrealismo pretendia definir uma prática artística alternativa à tradicional, sob o lema de “um homem novo, uma sociedade nova”.

«O nome foi cunhado em 1924 para expressar o anseio de muitos jovens artistas [...] de criar algo mais real do que a realidade», Ernest Gombrich, “A História de Arte”, sobre o surrealismo de jovens artistas como Modrian, Kandinsky e Klee.


Man Ray, Rayography The Kiss, 1922

O nascimento do Surrealismo não pode dissociar-se das mudanças económicas e sociais, decorrentes sobretudo da 1ª Grande Guerra e da “Revolução de Outubro”, em 1917, na antiga U.R.S.S., nem do agravamento de uma crise de valores que inclui o questionamento do pensamento discursivo e racional. Este movimento pretendeu revolucionar a vida através da arte, aceitando e alimentando as manifestações do inconsciente, da loucura, do “desregramento” dos sentidos, da anulação de fronteiras entre o sonho e a realidade.
Numa tentativa de sistematização dos aspectos mais importantes explorados em muitas das manifestações artísticas, sobretudo na pintura, na literatura e no cinema: actividade experimental na prática do automatismo, através da escrita automática e do sono provocado ou hipnótico, consequente preocupação em explorar o inconsciente, prospecção sistemática dos sonhos, das coincidências, de fenómenos do acaso, a psicanálise, esoterismo e magia.


8.4.10

Abstract - Outubro 2009

Este projecto tem como finalidade analisar e reflectir acerca da poesia visual, culminando com uma exposição, onde será reunido um conjunto de peças gráficas, realizadas por mim, com inspiração concretista, que unem a poesia, a imagem e o som.

As peças gráficas/ilustrações serão interpretações de poemas realizados por autores concretos a partir da década de 60, utilizando os novos media para a sua criação.

Como forma de sustentação teórica e de inspiração artística, irei abordar as três fases principais da poesia visual no século XX: a influência das vanguardas, o Dadaísmo e Surrealismo; o reflexo das vanguardas nos anos 60, década do culminar da poesia visual, a sua influência no meio artístico e num terceiro momento, a utilização dos novos medias como forma de expressão na contemporaneidade.

Bem-vindos ao meu blog!

Chamo-me Margarida, Licenciada em Design de Comunicação desde 2006. Em Outubro de 2008 iniciei o Mestrado Comunicação Cultura e Artes, especialização em Estudos de Imagem, na Universidade do Algarve.

Este blog irá servir como um "diário de bordo", no qual irei registar toda a minha pesquisa e desenvolvimento criativo para a projecto artístico / tese de Mestrado, sobre Poesia Visual e Concreta nos Novos Media.